30 novembro 2009

Leituras em lugares estranhos


A literatura de quarto de banho já deu origem a um extenso manancial de textos, pelo que não me alongarei por esse tema, assaz interessante.
Em todo o caso, foi de visita a um quarto de banho da família que deparei com o número 113 da revista Ingenium e com uma crónica de Jorge Buescu, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, intitulado "Sangaku: a matemática sacra".

Apetecia-me transcrevê-la na íntegra, mas, devidamente advertida por um amigo para os perigos de o fazer, deixo-vos aqui apenas um aperitivo. Poderão ler o resto do artigo no expositor da Biblioteca.

«Como será a Matemática num planeta estranho? Se se fizer esta pergunta a um matemático profissional, a sua resposta será provavelmente que é muito semelhante à nossa. A notação utilizada é certamente diferente, haverá algumas áreas científicas mais desenvolvidas e outras menos, mas uma coisa é certa: a Matemática não pode ser diferente noutro planeta. A Matemática tem uma natureza universal que é inescapável.
Os seres extraterrestres podem ter seis dedos em vez de cinco, podem ter uma bioquímica completamente diferente da nossa, podem orbitar um sol que emita fora do espectro visível e ter órgãos de visão sensíveis a infra-vermelhos ou ultravioletas. Mas por muito que difiram de nós, de uma coisa podemos estar certos: a sua Matemática é a nossa Matemática. Podem utilizar outro símbolo para designar pi, mas o seu valor, os factos de ser um número irracional, e mesmo transcendente, são absolutos e independentes da natureza destes seres. Na verdade, dirá um verdadeiro matemático, estes factos são verdades objectivas, absolutas e independentes da existência ou não de qualquer tipo de seres no Universo. Um verdadeiro matemático é, portanto, um platónico puro.

No entanto, mesmo o mais puro dos matemáticos não deixa de fantasiar secretamente sobre que aspecto poderia ter uma Matemática que tivesse sido desenvolvida de forma completamente ind ependente da que conhecemos, desenvolvida sobretudo no Ocidente a partir da revolução de Newton e Leibniz no século XVII. É claro que é uma especulação fútil, pensará o matemático puro: a Matemática "ocidental" foi tão bem sucedida na descrição do mundo natural que se espalhou e se impôs por todo o mundo.

Todo? Não! Como acontecia com a pequena ideia gaulesa de Astérix, houve um (não muito pequeno) território que resistiu, literalmente, ao invasor: o Japão.»
Ora aqui está um artigo interessante, bem escrito - e que prova que os professores universitários também lêem Astérix...


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