15 novembro 2009

O eco silencioso


van Gogh Noite estrelada sobre o rio Ródano - Museu de Orsay
in http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Starry_Night_Over_the_Rhone.jpg

O fenómeno do sono sempre me interessou porque durmo mal. A poesia de Álvaro de Campos celebra um ciclo circadiano invertido, a noite feita impiedosamente dia, a extraordinária lucidez aferrolhada nos olhos fechados, como se ao abrir as pálpebras se esgueirasse o pensamento.

Este é também o momento de vigília acústica, dos ruídos da casa na misteriosa digestão da noite.

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio.

Mas é ainda o sono dos sonhos que regressam iguais e inquietantes.

in ANTUNES, João Lobo - O eco silencioso. Gradiva, 2008, p. 181

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